O caráter eternamente pulsante e primitivo da natureza, na seiva que alimenta a árvore, no movimento que a faz crescer, viver e morrer, para Paul Cézanne — pintor que é considerado por muitos como o pai do modernismo — só será possível de ser transmitido na pintura a partir da coisa em si; ou seja, a árvore e a imagem da árvore são a mesma coisa. Como pintor, ele deseja a verdade como realidade factual e procura entender o espírito da árvore, deixando que a pintura transmita, da mesma forma, com verdade, algo mais profundo e íntegro que a mera ilusão visual da sua imagem. Pintar ou desenhar uma árvore, um tronco ou um galho é, portanto, ao mesmo tempo algo muito simples e grandioso: é traduzir o movimento orgânico e imprevisto da natureza, é criar uma cartografia do próprio mistério da vida.
A memória fotográfica de uma paisagem, registrada na imagem virtual da tela de um computador ou de um celular, certamente não oferece o mesmo terreno natural para a análise da realidade pulsante compreendida por Cézanne, mas aqui, hoje, para nós e nosso tempo, praticamente um século e meio depois, quando a pintura abstrata — prevista em Cézanne — e a própria superfície da tela já são assuntos basilares, a vegetação e a natureza são pauta arquivada por imagens digitais para a artista Ciça Tucunduva realizar ou cumprir suas pinturas. De forma corajosa, Ciça compreende Cézanne, talvez pela experiência de pintar já de longa data, seguindo sempre com naturalidade o desejo do próprio trabalho. Optando por recortes não horizontais, quadrados ou verticais — lugar coincidente da fotografia ou imagem digital hoje —, na exposição Matéria ao Redor a seleção das obras e a bela expografia, realizadas pela própria artista, sugerem a relevância de se atualizar o diálogo com a pintura e sua tradição de forma contextualizada e, ao mesmo tempo, livre de amarras. A pintura como evento antecede a proposta narrativa que a figura indica, mantendo linguagem, técnica e assunto com a mesma inescusável importância.
Em todos os casos, a gênese da pintura abstrata é lucidamente estrutural para Ciça, desde a escolha de formato e escala, a singularidade cromática, a compreensão dos objetos como “pintura-segmento”, prevendo sua “não autonomia”, até a modulação direta em dípticos ou trípticos e objetos “plano-escultóricos”, como a obra com rebarbas e resíduos de tintas secas na fatura farta e larga de algumas telas, ou mesmo na fatura fina e realista, como o estranho e poderoso tríptico que apresenta ao olho do espectador uma impossível e impensável coincidência de localização abstrata para a figura de uma simples mangueira ou fita. No trabalho de Ciça, o limite entre a figura e a abstração é desejado por ambas as possibilidades; o encontro no fio da faca, o vazio entre os volumes ou o lampejo do contato são frisados feito a rima num poema, como no par de pinturas “figuro-abstratas” de troncos em tons de azul e amarelo, interdependentes mas também autônomas, “cortadas” em segmentos que permitem ver a lateral vermelha da tela, como se a pintura desejasse ser mais que matéria, carne viva.
Claros e sedutores aspectos mostram a busca incessante e natural pelo lugar pictórico no trabalho de Ciça Tucunduva, um lugar de sentido intrínseco a toda pintura como linguagem, algo cada vez mais urgente e providencial no mundo.
Texto por Tony Camargo