A textura da tinta vai se acomodando no suporte onde gestos e ritmos da espátula definem o caminho da pintura. O esgrafitto é uma técnica que me permite criar figurações sensíveis e espontâneas que vão surgindo em convergência dos processos mentais, da memória e da matéria, como num reencontro da atmosfera de mistério que habita na natureza.
Os trabalhos de observação são sensíveis, a composição vai surgindo, como se, forma, cor e espaço dialogassem simultaneamente, como numa dança fluida e atenta à relação com a pintura. O gesto de retirar tinta do suporte, raspando com a espátula, como se estivesse revelando os segredos daquela pintura. A luz vai surgindo na escavação da tinta, trazendo sutilmente o fundo da tela à tona. Entre gestos e rítmicos, cada pintura entrega um processo direto sem ter previamente rabiscado algum esboço.
A textura das camadas de tinta se acumulando, revelando uma paleta única de cores, gestos e texturas. O processo do fazer artístico é uma jornada sensível, em que natureza, experiencia e a sensação se relacionam. É recorrente perceber a ausência na minha pintura de planos claramente definidos, como se a composição e a estrutura visual se fundissem em uma linguagem visual única. Desenvolvo a minha própria linguagem, conjugando forma, cor e espaço, trabalhando com uma paleta terciaria, equilibrada de marrons, laranjas, azuis, cinzas e amarelos que se transforma de acordo com o emocional. Gosto de pensar que o esgrafitto é uma técnica que me permite expressar através da pintura uma conexão entre o real e o ilusório, compartilhando assim essa experiência com os expectadores.