As telas circulares de Maria Cecília Tucunduva não são apenas uma metáfora da durabilidade passageira daquilo que circunda o nosso dia a dia através da multiplicidade do consumo e da impermanência da natureza, observada do ponto de vista da perda e da destruição gerada por avanços desenfreados. Ela traz também elementos que são próprios dessa cultura de consumo, como potes, cascas, restos e outros descartes que se transformam em matéria literal para sua produção. Entretanto, ao invés de olhar apenas para esse ciclo de forma geral, a sua produção recente investigou como isso ocorre no próprio circuito da arte.
Artistas dependem de uma multiplicidade de matéria-prima para produzir seus trabalhos. Muitos acabam se voltando para os meios tradicionais, como tintas a óleo e acrílica, telas, pedras, resinas e assim criam objetos, pinturas, esculturas. Maria Cecília também se utiliza desses materiais, mas abre sua investigação para o espaço de descarte e geração de resíduos que a própria produção da arte traz consigo no seu dia a dia. Suas resinas não sólidas e todo acúmulo e excesso de tinta que se forma durante a sua produção é reaproveitada para formarem outras obras.
A ideia de economia circular está no cerne do pensamento sobre sustentabilidade nos dias atuais. Mas como poderíamos pensar tal cultura num meio que se realiza basicamente pelo excesso? Excesso de materiais, de testes, de descartes, de pessoas adentrando os museus e se descolando globalmente (fisicamente) para ver grandes obras de grandes artistas. Exposições que são como a última Bienal de Veneza, por exemplo, que procurou estabelecer algumas metas que poderiam trazer uma atmosfera de responsabilidade ambiental, não fosse por toda a estrutura logística que colocava tais estratégias em situação contraditória. Ciça, ao contrário de artistas que trabalham com o descarte e com o excesso, como Vik Muniz, opera em outras escalas, trazendo o gesto familiar e cotidiano para o centro do debate. O ato de mascar chicletes, por exemplo, e os resíduos que isso gera, adentram o corpo de resinas que servem como suporte, sem qualquer tipo de polimento, guardando em si tudo aquilo que geralmente seria descartado na produção de obras de arte e design. São problemas sistêmicos que se revelam nas suas pequenas e médias peças, como no Trípico (Sem Ttulo, 2024), em que formas ovaladas são evidentes e apontam para múltiplos sentidos, como as representações de mapas-múndi ou retratos familiares de antepassados, populares no Brasil no século passado e que com a ausência de cantos nítidos evitam distrações, mantendo o foco no sujeito central. A paleta cromática utilizada pela artista evidencia um universo que flutua entre o onírico e o incendiário, estabelecendo uma variação entre cor e forma em que pesa mais a sensação do que a representação diante de cenas cotidianas, como nas telas Azul (2023) e Vermelho (2023), em que a figuração muitas vezes surge pelo verso do pincel, numa técnica conhecida como “sgraffito”, termo italiano que significa “arranhar” ou “escravar”, a mesma utilizada por pintores como Rodrigo Andrade e Miguel Bakun.